Neurologia · Moderado
Este caso é fictício e serve para estudo. Não descreve nenhum doente real.
71 anos · sexo feminino
Uma doente de 71 anos recorre ao serviço de urgência por cefaleia holocraniana de novo, com predomínio na região temporal direita, com cerca de três semanas de evolução. Refere que a dor se intensifica ao mastigar alimentos sólidos e nota um desconforto acentuado no couro cabeludo ao pentear-se. Adicionalmente, relata astenia, febrícula ocasional e uma perda ponderal não intencional de 3 kg no último mês. Nega alterações visuais súbitas, diplopia ou episódios prévios semelhantes. Ao exame físico, apresenta-se vigil e orientada.
Sinais vitais
- FC
- 76 bpm
- TA
- 138/82 mmHg
- FR
- 16/min
- Temp
- 37.3 °C
- SpO₂
- 97%
Exame objectivo
- Dor à palpação e espessamento do cordão arterial temporal direito, com diminuição do pulso homolateral
- Ausência de défices motores ou sensitivos focais
- Exame sumário dos pares cranianos sem alterações; fundoscopia sem papiledema
Análises
| Velocidade de sedimentação (VS) | 88 mm/1ª hora | referência: < 30 |
| Proteína C Reativa (PCR) | 54 mg/L | referência: < 5.0 |
| Hemoglobina | 11.1 g/dL | referência: 12.0-15.5 |
| Leucócitos | 9.8 10^9/L | referência: 4.0-11.0 |
Pergunta 1 de 3
Qual é o diagnóstico mais provável para o quadro clínico desta doente?
O surgimento de cefaleia de novo numa doente com mais de 50 anos, associado a claudicação da mandíbula, hipersensibilidade do couro cabeludo, sintomas sistémicos (astenia, perda ponderal) e reagentes de fase aguda muito elevados (VS e PCR) é clássico da arterite de células gigantes (arterite temporal). A enxaqueca de início em idade avançada é rara e não origina elevação importante de marcadores inflamatórios. A cefaleia de tensão não provoca claudicação da mandíbula nem marcadores inflamatórios alterados. A nevralgia do trigémio manifesta-se por dores paroxísticas em choque elétrico no território do nervo trigémio, sem repercussão inflamatória sistémica.
Ponto de ensino: Em doentes com mais de 50 anos, cefaleia de novo acompanhada de claudicação da mandíbula e elevação expressiva da VS/PCR deve erigir a hipótese de arterite de células gigantes.
Pergunta 2 de 3
Qual é o passo subsequente mais adequado na abordagem desta doente?
A corticoterapia sistémica (prednisolona oral 40-60 mg/dia) deve ser iniciada de imediato perante a suspeita clínica de arterite de células gigantes. Atrasar o tratamento para aguardar exames aumenta substancialmente o risco de perda de visão irreversível por neuropatia ótica isquémica anterior. A biópsia da artéria temporal mantém sensibilidade e utilidade diagnóstica mesmo quando realizada até 1-2 semanas após o início dos corticoides. Os triptanos estão indicados no tratamento agudo da enxaqueca, não da vasculite. A punção lombar não está indicada neste contexto e atrasaria o tratamento urgente.
Ponto de ensino: O início da corticoterapia na suspeita de arterite de células gigantes nunca deve ser adiado à espera da realização da biópsia da artéria temporal.
Pergunta 3 de 3
Qual é o exame complementar mais indicado para a confirmação diagnóstica definitiva desta patologia?
A biópsia da artéria temporal é o padrão de ouro (gold standard) para o diagnóstico definitivo de arterite de células gigantes, evidenciando um infiltrado inflamatório granulomatoso com células gigantes multinucleadas na camada média. Embora a ecografia e a RMN vascular possam demonstrar sinais de vasculite (ex.: sinal do halo na ecografia), a confirmação histológica pela biópsia continua a ser o exame definitivo preferencial. A TC cerebral sem contraste tem fraca sensibilidade para o diagnóstico de vasculites de vasos temporais.
Ponto de ensino: A biópsia da artéria temporal é o exame de confirmação histológica definitivo para a arterite de células gigantes.
Pontos-chave
- Cefaleia de novo em doentes com mais de 50 anos associada a claudicação da mandíbula e elevação da VS/PCR é altamente sugestiva de arterite de células gigantes.
- A corticoterapia em dose elevada deve ser iniciada imediatamente após a suspeita clínica para prevenir cegueira irreversível por neuropatia ótica isquémica.
- A biópsia da artéria temporal é o exame confirmatório definitivo e mantém sensibilidade diagnóstica se realizada até 1-2 semanas após o início dos corticoides.
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