Pediatria · Moderado
Este caso é fictício e serve para estudo. Não descreve nenhum doente real.
1 anos · sexo masculino
Um lactente do sexo masculino com 18 meses de idade é trazido ao Serviço de Urgência pelos pais devido a um episódio paroxístico no domicílio. Os pais relatam que, durante um pico febril, a criança apresentou perda de consciência, olhar fixo e abalos tónico-clónicos generalizados com duração aproximada de 2 minutos. A crise cessou espontaneamente sem necessidade de intervenção. Não há história pessoal ou familiar de epilepsia. À chegada ao serviço de urgência, a criança encontra-se no período pós-crítico tardio, reativa e a interagir adequadamente com os pais. Na observação otoscópica, identifica-se hiperemia e abaulamento da membrana timpânica direita.
Sinais vitais
- FC
- 130 bpm
- TA
- 92/56 mmHg
- FR
- 26/min
- Temp
- 38.6 °C
- SpO₂
- 98%
Exame objectivo
- Fontanela anterior plana e normotensa
- Ausência de rigidez de nuca ou sinais de irritação meningídea
- Exame neurológico sem défices focais
- Membrana timpânica direita hiperemiada e abaulada
Análises
| Hemoglobina | 12.1 g/dL | referência: 11.0-14.0 |
| Leucócitos | 11.5 x10^9/L | referência: 6.0-17.0 |
| Proteína C-Reativa | 18.0 mg/L | referência: < 5.0 |
| Sódio plasmático | 138 mmol/L | referência: 135-145 |
Pergunta 1 de 3
Qual é o diagnóstico mais provável para o quadro clínico apresentado por este doente?
Trata-se de uma convulsão febril simples, pois ocorre numa criança entre os 6 meses e os 5 anos, na presença de febre (associada a otite média aguda), com semiologia tónico-clónica generalizada, duração inferior a 15 minutos (2 minutos no caso) e sem recorrência nas 24 horas subsequentes. A convulsão febril complexa caracteriza-se por ser focal, durar mais de 15 minutos ou recorrer em 24 horas. A ausência de rigidez de nuca, fontanela abaulada ou prostração persistente afasta a hipótese primária de meningite bacteriana. A epilepsia pressupõe crises afebris e recorrentes.
Ponto de ensino: A convulsão febril simples é generalizada, dura menos de 15 minutos, não recorre em 24 horas e ocorre em crianças previamente hígidas entre os 6 meses e os 5 anos sem infeção do sistema nervoso central.
Pergunta 2 de 3
Qual é a conduta terapêutica e de orientação mais adequada para este doente neste momento?
A conduta na convulsão febril simples baseia-se no esclarecimento e descanso dos pais quanto ao carácter benigno do quadro, no tratamento da infeção subjacente e no controlo da febre para conforto da criança (ex.: paracetamol). Não há indicação para profilaxia contínua nem intermitente com antiepiléticos, nem para internamento ou realização de EEG por rotina numa crise simples com recuperação neurológica completa.
Ponto de ensino: O pilar da abordagem da convulsão febril simples é a informação e tranquilização dos pais, a gestão do conforto térmico e a orientação sobre sinais de alarme.
Pergunta 3 de 3
Se o doente mantivesse alteração do estado de consciência (sonolência marcada ou irritabilidade persistente) e apresentasse rigidez de nuca, qual seria o exame complementar mais indicado?
Perante a presença de sinais de irritação meningídea (rigidez de nuca) ou alteração persistente do estado de consciência pós-crise, torna-se imperativo afastar infeção do sistema nervoso central (meningite ou encefalite). A punção lombar com análise do líquido cefalorraquidiano é o exame de escolha para confirmar ou afastar esta hipótese. A TC de crânio não é necessária antes da punção lombar na ausência de sinais de hipertensão intracraniana ou défices focais.
Ponto de ensino: A presença de sinais meningídeos ou prostração persistente após uma crise febril exige a realização de punção lombar para excluir infeção do sistema nervoso central.
Pontos-chave
- A convulsão febril simples define-se por uma crise generalizada, com duração inferior a 15 minutos, sem repetição em 24 horas, num contexto febril em crianças dos 6 aos 60 meses.
- Exames de imagem cerebral, eletroencefalograma e análises laboratoriais por rotina não estão indicados na convulsão febril simples sem outros fatores de risco.
- A avaliação cuidadosa de sinais de infeção do sistema nervoso central (como rigidez de nuca, fontanela abaulada ou alteração persistente da consciência) é essencial para determinar a necessidade de punção lombar.
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