Pediatria · Moderado
Este caso é fictício e serve para estudo. Não descreve nenhum doente real.
1 anos · sexo masculino
Um rapaz de 14 meses é trazido ao Serviço de Urgência pelos pais por quadro de vómitos e diarreia aquosa com 3 dias de evolução. A mãe refere que a criança está muito prostrada, recusa a ingestão de líquidos desde há 12 horas e não apresenta fraldas molhadas nas últimas 8 horas. Não há registo de viagens recentes nem de ingestão de alimentos suspeitos. Ao exame físico, o doente apresenta-se sonolento mas reativo ao toque, com mucosas secas, olhos encovados, ausência de lacrimejo ao chorar e tempo de reenchimento capilar prolongado. O sinal da prega cutânea desfaz-se lentamente (> 2 segundos).
Sinais vitais
- FC
- 162 bpm
- TA
- 78/46 mmHg
- FR
- 36/min
- Temp
- 37.6 °C
- SpO₂
- 98%
Exame objectivo
- Prostrado, sonolento, mas reativo a estímulos dolorosos
- Mucosas orais secas e olhos encovados
- Ausência de lágrimas ao chorar
- Tempo de reenchimento capilar de 3 a 4 segundos
- Sinal da prega cutânea desfaz-se em mais de 2 segundos
Análises
| Sódio sérico | 137 mmol/L | referência: 135-145 |
| Potássio sérico | 3.8 mmol/L | referência: 3.5-5.1 |
| Ureia | 54 mg/dL | referência: 15-40 |
| Creatinina | 0.8 mg/dL | referência: 0.2-0.4 |
| Gasometria venosa - pH | 7.27 sem unidade | referência: 7.31-7.41 |
| Gasometria venosa - HCO3- | 14 mmol/L | referência: 21-28 |
| Gasometria venosa - Lactatos | 2.4 mmol/L | referência: 0.5-2.0 |
Pergunta 1 de 3
Considerando os achados clínicos e laboratoriais do doente, qual é a classificação correta do estado de desidratação e do equilíbrio eletrolítico?
O doente apresenta sinais de desidratação grave (tempo de reenchimento capilar prolongado, hipotensão, oligúria/anúria, sinal da prega muito lentificado). O sódio de 137 mmol/L está dentro do intervalo de referência (135-145 mmol/L), caracterizando uma desidratação isonatratémica. O pH reduzido com HCO3- baixo e lactato ligeiramente elevado traduzem acidose metabólica. O aumento da ureia e creatinina em contexto de hipovolemia reflete uma disfunção renal pré-renal.
Ponto de ensino: A desidratação grave em pediatria manifesta-se com compromisso hemodinâmico, e o tipo de desidratação (isonatratémica, hiponatratémica ou hipernatratémica) é determinado pelo nível de sódio plasmático.
Pergunta 2 de 3
Qual é a medida terapêutica inicial mais adequada para este doente neste momento?
Perante um quadro de desidratação grave com sinais de perfusão inadequada e hipotensão (choque hipovolémico iminente ou instalado), a prioridade é a ressuscitação volémica imediata com bólus de cristalóide isotónico (soro fisiológico a 0,9% a 10-20 mL/kg) por via IV ou intraóssea em 15 a 20 minutos. A reidratação oral está contraindicada em doentes letárgicos e em choque. A loperamida é contraindicada em pediatria na gastroenterite aguda.
Ponto de ensino: A ressuscitação com bólus IV de cristalóide isotónico (10–20 mL/kg) é o passo inicial obrigatório na desidratação grave com compromisso hemodinâmico.
Pergunta 3 de 3
Após a administração do bólus inicial de soro fisiológico, a frequência cardíaca do doente reduziu para 125 bpm, a pressão arterial subiu para 92/58 mmHg e o tempo de reenchimento capilar passou a ser de 2 segundos. Qual é a conduta mais adequada a seguir?
Com a estabilização hemodinâmica obtida após o bólus de ressuscitação, a fase seguinte consiste em reavaliar o estado do doente, calcular as necessidades de manutenção diárias mais a correção do défice hídrico remanescente e perdas continuadas, administrando o volume calculado ao longo das 24 horas seguintes. O soro hipertónico não é indicado na ausência de hiponatremia sintomática grave. Jejum prolongado não é recomendado e a gastroenterite viral comum não requer antibioterapia.
Ponto de ensino: Após a ressuscitação inicial e estabilização hemodinâmica, deve ser estabelecido um plano de fluidoterapia de manutenção e correção do défice para as 24 horas seguintes.
Pontos-chave
- A desidratação em idade pediátrica é classificada clinicamente (ligeira, moderada ou grave) com base no exame físico e sinais hemodinâmicos.
- Doentes com desidratação grave e sinais de choque requerem expansão volémica emergente com bólus de cristalóide isotónico (10-20 mL/kg) por via IV ou IO.
- A natremia define o tipo de desidratação (isonatratémica se 135-145 mmol/L), orientando a velocidade de correção hídrica subsequente.
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