Gastrenterologia e hepatologia · Moderado
Este caso é fictício e serve para estudo. Não descreve nenhum doente real.
26 anos · sexo feminino
Uma doente de 26 anos recorre à consulta externa de Gastrenterologia por diarreia mucossanguinolenta com 6 semanas de evolução, associada a tenesmo retal e dor abdominal em cólica no quadrante inferior esquerdo. Refere cerca de 5 a 6 dejecções diárias, por vezes com despertares noturnos, e uma perda ponderal não intencional de 3 kg no último mês. Nega viagens recentes ao estrangeiro, toma recente de antibióticos ou episódios semelhantes no passado. Não apresenta antecedentes pessoais relevantes. Ao exame objetivo, encontra-se vigil, orientada e hemodinamicamente estável.
Sinais vitais
- FC
- 82 bpm
- TA
- 118/74 mmHg
- FR
- 15/min
- Temp
- 37.1 °C
- SpO₂
- 98%
Exame objectivo
- Abdomén mole, depressível, com dor à palpação profunda na fossa ilíaca esquerda
- Ausência de defesa abdominal, rigidez ou dor à descompressão súbita
- Toque retal com ampola retal com estrias de sangue vivo e muco, sem massas palpáveis
Análises
| Hemoglobina | 11.1 g/dL | referência: 12.0-15.5 |
| Leucócitos | 11.4 10^9/L | referência: 4.0-11.0 |
| Plaquetas | 410 10^9/L | referência: 150-400 |
| Proteína C Reativa (PCR) | 24 mg/L | referência: < 5.0 |
| Calprotectina fecal | 620 µg/g | referência: < 50 |
| Coprocoltura e exame parasitológico de fezes | Negativo | referência: Negativo |
| Pesquisa de toxina de Clostridioides difficile | Negativa | referência: Negativa |
Pergunta 1 de 3
Com base na história clínica, no exame objetivo e nos exames laboratoriais apresentados, qual é o diagnóstico mais provável?
O quadro de diarreia mucossanguinolenta crónica/subaguda, tenesmo retal, anemia ligeira e elevação marcada de reagentes de fase aguda (PCR) e calprotectina fecal na ausência de causas infeciosas é clássico de doença inflamatória intestinal, mais especificamente colite ulcerosa. A síndrome do intestino irritável não causa sangramento intestinal nem elevação da PCR ou calprotectina. A infeção por Clostridioides difficile foi excluída pela pesquisa de toxina negativa e ausência de antibioterapia prévia. A doença celíaca cursa tipicamente com diarreia aquosa e síndromes de má absorção, sem sangue nas fezes nem envolvimento inflamatório cólico primário.
Ponto de ensino: A combinação de diarreia sanguinolenta subaguda, tenesmo e calprotectina fecal elevada com microbiologia negativa aponta fortemente para doença inflamatória intestinal, como a colite ulcerosa.
Pergunta 2 de 3
Qual é o exame complementar de diagnóstico mais adequado para confirmar o diagnóstico e avaliar a extensão da doença nesta doente?
A ileocolonoscopia com recolha de biópsias segmentares é o exame de eleição para confirmar o diagnóstico de colite ulcerosa, avaliar a extensão mucosal do envolvimento (proctite, colite esquerda ou pancolite) e diferenciar de outras patologias inflamatórias como a doença de Crohn. A TC abdominal não é o exame de primeira linha para avaliação da mucosa, reservando-se para suspeita de complicações extraluminais. O trânsito baritado e a cápsula endoscópica servem para avaliar o intestino delgado e não são indicados como primeiro passo no diagnóstico de suspeita de colite ulcerosa primariamente cólica.
Ponto de ensino: A ileocolonoscopia com biópsias é o exame de referência para a confirmação diagnóstica e estadiamento da extensão na colite ulcerosa.
Pergunta 3 de 3
Admitindo que a endoscopia confirma uma colite ulcerosa de gravidade ligeira a moderada limitada ao retossigmóide (proctossigmoidite), qual é a terapêutica de primeira linha recomendada para indução da remissão?
Na colite ulcerosa ligeira a moderada com envolvimento distal (proctossigmoidite), a associação de 5-aminossalicilatos (mesalazina) por via tópica (supositório ou enema) e por via oral constitui o tratamento de primeira linha mais eficaz para a indução da remissão. Os corticoides sistémicos como a prednisolona são reservados para exacerbações moderadas a graves ou para doentes refratários aos 5-ASA. O infliximab (biológico) e a azatioprina (imunomodulador) são indicados na doença moderada a grave refratária ou corticodependente, não sendo terapêuticas iniciais para quadros ligeiros a moderados distalmente limitados.
Ponto de ensino: A mesalazina tópica combinada com mesalazina oral é a terapêutica de primeira linha na indução da remissão da colite ulcerosa distal ligeira a moderada.
Pontos-chave
- Diarreia sanguinolenta persistente com calprotectina fecal elevada e exames microbiológicos negativos deve levantar forte suspeita de Doença Inflamatória Intestinal.
- A ileocolonoscopia com biópsias segmentares é indispensável para o diagnóstico definitivo e para determinar a extensão e gravidade da colite ulcerosa.
- Os aminosalicilatos (mesalazina) por via tópica e oral são a terapêutica de primeira escolha para a indução da remissão na colite ulcerosa ligeira a moderada.
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