Musculoesquelético e reumatologia · Moderado
Este caso é fictício e serve para estudo. Não descreve nenhum doente real.
67 anos · sexo feminino
Doente do sexo feminino, de 67 anos, recorre à consulta de Medicina Interna por quadro de dores intensas nos ombros e na cintura pélvica com 6 semanas de evolução. Refere rigidez matinal simétrica que se prolonga por mais de 60 minutos, dificultando tarefas simples como vestir-se e levantar-se da cadeira. Nega cefaleias de novo, claudicação da mandíbula, alterações visuais, febre ou perda de peso ponderal significativa.
Sinais vitais
- FC
- 74 bpm
- TA
- 128/78 mmHg
- FR
- 14/min
- Temp
- 36.6 °C
- SpO₂
- 98%
Exame objectivo
- Limitação dolorosa da mobilidade ativa de ambos os ombros e ancas
- Mobilidade passiva preservada e força muscular mantida quando testada contra resistência
- Ausência de sinais inflamatórios nas articulações periféricas das mãos e pés
- Ausência de dor à palpação ou espessamento das artérias temporais
Análises
| Hemoglobina | 11.8 g/dL | referência: 12.0-15.5 |
| Velocidade de sedimentação (VS) | 68 mm/1ª hora | referência: < 30 |
| Proteína C reativa (PCR) | 32.0 mg/L | referência: < 5.0 |
| Creatina quinase (CK) | 85 U/L | referência: 26-192 |
| Fator reumatoide | Negativo (< 10) UI/mL | referência: < 14 |
Pergunta 1 de 3
Perante o quadro clínico e os exames laboratoriais apresentados, qual é o diagnóstico mais provável?
A polimialgia reumática (PMR) afeta tipicamente doentes com mais de 50 anos e caracteriza-se por dor e rigidez matinal prolongada (> 45 min) nas cinturas escapular e pélvica, acompanhada por elevação acentuada dos reagentes de fase aguda (VS e PCR) com CK normal. A polimiosite cursa com fraqueza muscular objetiva e elevação substancial da CK. A artrite reumatoide caracteriza-se por sinovite periférica (ex.: mãos e pés) e serologias tipicamente positivas. A fibromialgia apresenta reagentes de fase aguda (VS e PCR) normais.
Ponto de ensino: A polimialgia reumática manifesta-se por dor e rigidez matinal nas cinturas escapular e pélvica em doentes com mais de 50 anos, associada a VS e PCR elevadas e CK normal.
Pergunta 2 de 3
Qual é a abordagem terapêutica inicial mais adequada para esta doente?
O tratamento de primeira linha da polimialgia reumática não complicada é a corticoterapia oral em dose baixa a moderada (prednisolona 12.5 a 25 mg/dia, sendo 15 mg/dia a dose inicial standard), proporcionando uma resposta sintomática rápida e espetacular em 24 a 72 horas. Doses mais elevadas (40-60 mg/dia) destinam-se a casos com arterite de células gigantes associada. Os AINEs como o ibuprofeno são ineficazes para controlar a inflamação sistémica da PMR. O metotrexato é um agente de segunda linha utilizado como poupador de corticoides em recidivas ou intolerância aos esteroides.
Ponto de ensino: A prednisolona em dose baixa a moderada (12.5-25 mg/dia) é o tratamento de primeira linha na polimialgia reumática não complicada.
Pergunta 3 de 3
Durante o seguimento ambulatorial desta doente, qual das seguintes condutas é a mais adequada na vigilância clínica?
A polimialgia reumática está fortemente associada à arterite de células gigantes (ACG); cerca de 10-20% dos doentes com PMR desenvolvem ACG. É indispensável pesquisar em todas as consultas a presença de sintomas de alarme (cefaleia temporal de novo, claudicação mandibular, alterações visuais ou dor no couro cabeludo), cuja emergência exige o aumento imediato da dose de corticoide para prevenir complicações isquémicas graves como a cegueira. A biópsia da artéria temporal não está indicada de rotina na ausência de sintomas sugestivos de ACG. O desmame de prednisolona na PMR deve ser muito lento (tipicamente ao longo de 1 a 2 anos). A eletromiografia é normal na PMR e não tem utilidade na vigilância.
Ponto de ensino: Doentes com polimialgia reumática devem ser ativamente monitorizados para o aparecimento de sintomas de arterite de células gigantes em todas as reavaliações.
Pontos-chave
- A polimialgia reumática afeta indivíduos com > 50 anos, manifestando-se com dor e rigidez matinal nas cinturas escapular e pélvica e marcada elevação de VS e PCR.
- A resposta inicial à prednisolona oral em dose baixa (12.5–25 mg/dia) é tipicamente rápida e dramática, confirmando o diagnóstico clínico.
- Devido ao risco de associação com a arterite de células gigantes, a pesquisa de sintomas cranianos e visuais deve ser realizada em cada consulta de seguimento.
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